HIGH-TECH

Armações que caem como uma luva - parte 1

O ajuste da armação é uma etapa fundamental na adaptação dos óculos. Afinal, estão em jogo aspectos essenciais como conforto, acuidade visual e resultado estético. É o momento em que se prova a diferença entre um simples vendedor e um profissional de balcão. Acompanhe nesta e na próxima edição as dicas do óptico Eric Gozlan.

Cada pessoa é única: tal qual as impressões digitais, cada rosto também é exclusivo. O nariz, a largura das têmporas, a altura da orelha variam de um indivíduo para outro. Um mesmo par de óculos, provado por várias pessoas, terá sempre uma aparência diferente em cada rosto e deve ser ajustado conforme as características de cada cliente.
É por isso que o ajuste da armação é uma etapa fundamental na adaptação dos óculos. É preciso garantir o conforto físico – ou seja, evitar que os óculos apertem demais, su-bam demais, fiquem mal centralizados, exerçam pressão nas têmporas ou no nariz –, além de proporcionar uma tomada correta de medidas, assegurando acuidade visual ao usuário.
Basta lembrar que, antes de medir a altura, é necessário que a armação esteja totalmente horizontal, ou corre-se o risco de obter altura errada. O ajuste da armação é tão importante que pode ainda solucionar pequenos erros de medida. Por exemplo, para centralizar melhor o ponto de referência em lentes progressivas, pode-se abrir ou fechar as plaquetas.
Quem pensa que ajustar uma armação consiste apenas em equilibrar as duas hastes e girar as plaquetas com as mãos, enganou-se. Trata-se de um exercício completo que envolve cada parte da peça (charneira, hastes, ponteiras, plaquetas e frontal) que deve ser realizado com ferramentas apropriadas e exige considerável conhecimento técnico e treinamento para desenvolver tal habilidade.
Todas as partes da armação estão interligadas e qualquer detalhe pode alterar radicalmente o ajuste – daí a importância de seguir uma ordem lógica. Por exemplo, é quase impossível regular a inclinação antes da horizontalidade da peça.

Antes de tudo
Alicates são essenciais para realizar os ajustes. Até as mãos mais hábeis não conseguem se igualar à precisão dessas ferramentas. Afinal, se a tecnologia já se dedicou a criar ferramentas específicas, por que abrir mão delas?
O material básico para ajustes de que um profissional de óptica deve dispor é um jogo de alicates, um aquecedor e uma microfibra para proteger e manipular tranqüilamente a armação. Há microfibras de tamanho maior do que o convencional, próprias para uso profissional, comercializadas pe-las principais empresas de acessórios do mercado óptico.
É importante saber exatamente os pontos de flexão e de torção das armações, os materiais e como ajustar os diferentes tipos de armação (três peças ou flutuantes, fio de náilon, me-tal, acetato etc.), o tempo certo de aquecimento de cada ma-terial, os alicates adequados e como utilizá-los. Uma ótima dica para desenvolver a habilidade do ajuste é treinar com ar-mações antigas praticando com os colegas de trabalho, uma boa oportunidade, inclusive, para trocar experiências com os companheiros.
Outro detalhe muito importante é o cuidado pessoal. É muito importante que todo profissional de óptica zele pela sua apresentação, especialmente porque a adaptação de óculos exige um contato muito próximo com o rosto do cliente no momento de experimentar os óculos e do ajuste. Mãos limpas e bom hálito são requisitos fundamentais: nada de unhas sujas, cheiro de comida, odor de cigarro etc.


Mãos à obra
Antes de iniciar o ajuste propriamente dito, é importante realizar algumas verificações para garantir o sucesso do ajuste. O primeiro passo é verificar se todos os parafusos estão bem apertados. Deve-se observar também se as lentes estão no mesmo plano quando vistas de cima, e assim podem ser cuidadosamente ajustadas, com as mãos, no nível da ponte.
Outra medida importante é colocar os óculos no rosto do cliente e verificar se a armação fica bem nos seus apoios, isto é, se as plaquetas estão assentadas na superfície do nariz e hastes estão apoiadas no início das orelhas. Se necessário, pode-se eliminar a curvatura das ponteiras para não haver ne-nhum toque irregular nas orelhas.

Primeiro passo: a horizontalidade
Quando os óculos estão tortos na frente, ou seja, um aro mais alto do que o outro, deve-se ajustar a horizontalidade da face. Geralmente isso acontece quando o cliente tem uma orelha um pouco mais alta que a outra. Utilizando um alicate para alinhamento das hastes – aquele com duas ligeiras cavidades nas pontas – e uma microfibra, acerta-se a horizontalidade pela inclinação de uma das hastes seja para cima ou para baixo. Se a haste esquerda for inclinada para baixo, a armação se levantará do lado esquerdo.
Com a charneira protegida pela microfibra, posiciona-se o alicate no prolongamento da haste aberta, apertando-se de-licadamente a charneira. Com a outra mão, deve-se segurar bem o frontal na altura do ponto de solda da charneira no aro, evitando torcê-lo.
Este ajuste pode ser feito com as lentes já montadas e, na maioria dos casos, o frontal deve ficar paralelo à linha das sobrancelhas. Se as lentes forem progressivas, o profissional deve ter atenção redobrada para evitar um erro de altura.

Sobrancelhas em destaque
Uma vez acertada a horizontalidade, o próximo passo é nivelar a armação com a linha mediana das sobrancelhas. O ideal é que o frontal nunca cubra as sobrancelhas, que têm papel determinante nas expressões do olhar. Nesse caso, basta um pequeno ajuste das plaquetas: quando afastadas, a ar-mação desce e, para fazer com que a armação fique um pou-co mais alta, deve-se aproximá-las. Para faze-lo com precisão, o ideal é usar um alicate de pontas finas.
Esse ajuste necessita de um movimento em dois tempos. Primeiro, segurar o braço da plaqueta com o alicate, faz-se um movimento de rotação que vai modificar o ângulo de abertura nasal. Com isso, somente a parte do braço que su-porta a plaqueta se altera.
Na seqüência, ainda segurando o alicate na mesma posição, deve-se arrastar a parte do braço da plaqueta soldada no aro, com um movimento de rotação do pulso. Desta forma, as plaquetas voltam ao ângulo de abertura nasal origi-nal, ainda mais apertadas – para afastá-las, é só fazer os dois movimentos em ordem inversa.
Com a mão livre, deve-se segurar o frontal bem na altu-ra da solda da plaqueta no aro, para evitar o risco de as plaquetas se quebrarem. O uso de alicate para plaquetas não é recomendado porque arrasta o braço inteiro, e um movimen-to não simétrico acabará deslocando lateralmente a armação. Na adaptação de lentes progressivas, também é possível corrigir pequenos erros de altura com um ajuste de plaquetas.

A inclinação ideal
O ajuste da inclinação do frontal da armação também é crucial. Dele, dependem o conforto visual e a orientação das bochechas e das sobrancelhas, que jamais devem encostar na armação. O movimento é o mesmo que o do ajuste da horizontalidade, com os mesmos instrumentos – porém, a ação deve ser idêntica sobre as duas hastes.
Na adaptação de lentes progressivas, a falta de inclinação pode provocar uma diminuição da amplitude dos campos de visão intermediário e de perto. No entanto, uma inclinação excessiva obrigará o usuário a abaixar muito os olhos para obter a adição necessária. Geralmente, o ângulo pantoscópico de inclinação varia entre 10 graus e 12 graus.

A próxima edição de High-Tech dará seqüência ao passo a passo do ajuste de armações, com orientações sobre a distância ideal entre olho e lente, abertura e fechamento das hastes, o acerto de ponteiras e plaquetas para maior conforto dos óculos e algumas outras dicas. Até lá.


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