UM OUTRO OLHAR
Óculos errados na hora errada

Andrea Tavares é editora da View
|
Depois de alguns meses de campanha eleitoral, confesso que não agüentava mais os óculos do candidato e agora deputado federal eleito em São Paulo, Enéas Carneiro. O que me chama atenção é que nesses 13 anos de presença na mídia, desde quando se candidatou pela primeira vez a presidente em 1989, é que, em vez de melhorar, a sua aparência piora graças àqueles óculos bizarros, a cada ano maiores e mais inadequados a seu rosto.
Entendo – porém não concordo, como boa esteta que sou – que alguém queira chamar atenção realçando as suas piores características. Até aí pode ser uma jogada de marketing. Mas o pior é que nes-ses momentos as pessoas sempre lançam mão dos óculos. Seja o Enéas ou a atriz colombiana Ana Ma-ria Orozco, a protagonista da novela da rede TV!, Betty, a Feia, e até mesmo a atriz nor-te-americana Linda Carter no seriado A Mulher Maravilha, sucesso nos anos 70.
Não acompanho a nove-la, mas já li que a tal “moça de aparência esquisita que persegue o sonho de conquistar o seu espaço profissional e um amor aparentemente impossível”, como descreve o próprio site da emissora, chegará ao final da história transformada de patinho feio e desajeitado em uma linda mulher e bem-sucedida afetiva e profissionalmente e, é claro, sem óculos!
|
dos Estados Unidos rapidamente desfazia-se de uma armação de receituário gigantesca que cobria suas bochechas ao vestir aquela roupa cheia de listras e estrelas e incorporar a poderosa salvadora do país com seu laço da verdade e seu avião invisível.
Sem falar nas incontáveis vezes na tevê, no cine-ma ou no teatro em que os óculos são usados para caracterizar personagens desleixados (com o famoso durex ou qualquer outro que seja o recurso seguran-do a haste), pouco favorecidos visual ou mentalmen-te (com aquelas terríveis lentes grossas) e de tantas outras formas para realçar características negativas. Mas desde que o mundo é mundo, essas coisas acontecem e, de uma forma prática, imagino que não se possa fazer muito nesse sentido para que todo mundo pare de usar os óculos como realce negativo da imagem.
“Todo mundo do mercado óptico deveria ter dois pontos como verdade para si: em primeiro lugar, usar óculos e em segundo lugar, ter alguns pares diferentes e variá-los!”
Por outro lado, há muito a ser feito. O combate à imagem negativa dos óculos deve ter outra estratégia: mostrar o quanto podem ser sinônimo de inteli-gência, cultura, moda e beleza. Um ótimo exemplo disso é a apresentadora de tevê e jornalista Marília Gabriela. Ao lançar sua coleção própria de óculos em março, revelou, durante a entrevista coletiva, a sua satisfação de começar a usar óculos no ar, depois de muitos anos de carreira, pois sempre foi uma amante de óculos e, além disso, sabia que essa atitude seria um truque perfeito para despertar a atenção do público, especialmente por-que variava muito e abusava de cores e formas.
O mais curioso é que Gabi teve tal idéia por iniciativa própria, sem nunca ter sido uma profissional de óptica. Coisa que todo mundo desse mercado deveria ter como verdade para si: em primeiro lugar, usar óculos e em segundo lugar, ter alguns pares diferentes e variá-los! Portanto, se você ainda não aderiu, comece a pensar nisso e coloque a sugestão em prática. Ou vai querer que os óculos sejam eternamente associados a características depreciativas? Vai dizer que não seria muito bom ver Enéas tomando posse; Betty realizada, linda e com um final feliz e a Mulher Maravilha pronta para novas missões pa-ra salvar o mundo com armações perfeitas, modernas e de acordo com seus estilos?
[volta]
|