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Profissão do amor demais

Fatores como talento, sorte e muitos outros trazem sucesso a um profissional de balcão. Mas o bom vendedor de verdade é aquele que gosta do que faz.

Reportagens e texto Andrea Tavares e Cíntia Marcucci
Fotos Andrea Tavares, Cíntia Marcucci e JAF


Tudo começou com a vontade de conhecer ainda mais o universo óptico nacional. Debruçar-se sobre o balcão da óptica para conhecer de fato quem fica atrás dele e ao mesmo tempo na linha de frente, atendendo diariamente os brasileiros interessados - ou nem tanto - em adquirir óculos. Essa vontade inicial gerou uma valorosa e emocionante experiência que, espera-se, seja apenas o começo de um contato mais sólido entre a View e os profissionais de balcão de óptica de todo o Brasil.
Conhecer suas histórias mostrou o quanto vender é uma atividade especial. E, mais do que vender, orientar e conquistar o cliente. Durante a Óptica 2001 e em outras ocasiões, a View saiu a campo para ouvir os melhores profissionais de vendas de algumas redes de óptica do país. Mas antes de começar a relatar as experiências de cada um dos entrevistados, vale comentar que os profissionais citados são apenas alguns exemplos do que a óptica nacional tem de melhor em seus balcões.

Sede de crescer - Todos têm algo em comum: esforço, dedicação e amor pelo que fazem. São alguns exemplos do bom vendedor brasileiro. A experiência e a forma que cada um encara a atividade que exerce são, além de interessantes, muito ricas em dicas para encontrar o caminho das pedras e ser um sucesso no balcão.
Não é novidade para ninguém que gostar do que faz já é meio caminho andado para ser feliz e bem-sucedido. Mas isso não é suficiente: é preciso estar apto e querer melhorar a cada dia. E não se contentar apenas com o que é mais fácil ou certo, deve- se mostrar diversas opções de modelos e preços para o cliente, pois a sabedoria do balcão revela: vender o diferente é o mais difícil.
Um bom vendedor, por exemplo, tem algumas marcas registradas: normalmente conhece muito bem o produto que vende, é atualizado, educado, cordial e gosta de se relacionar e trabalhar com pessoas, com os mais diversos tipos que se pode imaginar. Estima-se que cerca de 80% de uma venda estão diretamente ligados ao atendimento do vendedor.
Quem não conhece histórias de pessoas que não põem mais os pés em uma determinada loja, porque foram mal recebidas? Ou, pelo contrário, de pessoas que se tornam "freguesas", como disse o colunista da View, Carlos Júlio, na edição 34, fiéis a esse ou àquele local, preferindo sempre um vendedor em especial? Esse último caso é o sonho de todos os profissionais de balcão.

Nota dez - A primeira coisa a se ter em mente é que se está lidando com pessoas. Não é fácil entender tantos tipos e personalidades diferentes, mas é importante perceber que as necessidades de cada indivíduo são únicas como ele. Há pessoas que desejam apenas a correção visual; outras priorizam o resultado estético e há consumidores mais esclarecidos sobre óptica, outros mais leigos, e ainda aqueles que fazem questão de um contato mais próximo, uma atenção especial, bem como os que querem comprar e ir embora o mais rápido possível.
Isso é o relacionamento humano, que muitas vezes faz a diferença entre um bom vendedor e outro nem tanto. "É gostoso perceber que cada cliente é uma caixinha de surpresas, mas é bom abri-la, mesmo que saiam cobras e lagartos. Sempre há o que aprender e desafios aprimoram o profissional", comenta a baiana Maiza Carvalho, supervisora e constante destaque no balcão da Ótica Ernesto (Salvador/BA).
O mais importante é atender a necessidade do cliente nos pontos menos óbvios, ir além do básico. Que ele quer e precisa de óculos confortáveis, que lhes garantam acuidade visual e um bom resultado estético são fatos incontestáveis.
Portanto, é um grande ponto a favor conhecer bem os produtos e as tecnologias disponíveis na loja, além do que está acontecendo no mundo que, direta ou indiretamente, relaciona-se com a óptica. "É preciso estar antenado com todas as tendências, ler e gostar da informação. Vivemos numa sociedade globalizada e o que acontece na política, na economia aqui ou do outro lado do mundo nos afeta, principalmente no comércio", ressalta Rogério Silva, vendedor das Ópticas Itamaraty, Fortaleza/CE.

Tratamento ideal – Depois que o cliente tem a primeira boa impressão sobre o vendedor, fica mais fácil criar um relacionamento de confiança e amizade, em que o profissional pode dar conselhos e criar uma intimidade saudável. É daí que surge a real fidelidade entre vendedores e clientes. Há profissionais que atendem membros de várias gerações de uma mesma família. Outros conquistam consumidores por meio da mudança de visual. "O bom vendedor tem educação, conhecimento, simpatia e paciência", ressalta Sueli Armaroli, das Óticas do Povo, Rio de Janeiro.
"Certa vez, queria vender um receituário diferente para um cliente e sabia que havia novidades na outra filial. Ao pesquisar o preço, descobri que o produto não estaria disponível no mesmo dia. Expliquei ao cliente que os óculos eram a sua cara. No final, pagou a peça sem vê-la e foi buscá-la dias depois. Mesmo sabendo que se ele não gostasse eu teria de arcar com o prejuízo, arrisquei. E ele adorou", conta Maiza.
Outro ponto que cativa o consumidor e caracteriza bons profissionais é a disposição em fazer o que for possível para satisfazer seus desejos e necessidades. Mesmo que pareça algo óbvio. "Em Maceió, a procura por armações de receituário de metal e no estilo três peças e bem superior à de acetato. Quando aparece alguém que deseja algo original, de acetato, eu não tenho dúvida: escolho um modelo solar, tiro as lentes e mostro", explica Marluce Oliveira, da rede alagoana Flu Look Express.

Promove ou não promove? - Um bom líder, seja gerente, supervisor ou dono, também é aquele que não incita rivalidades e sabe reconhecer o valor de cada um. Deve saber observar as características de seus funcionários, já que é comum um profissional que obtém destaque, seja nas vendas ou em outro setor, ocupar um cargo mais alto ou de liderança.
Mas nem sempre o excelente vendedor é a pessoa certa para tais cargos. E não é por falta de competência, mas simplesmente por ter um dom tão acentuado para a venda que, às vezes, uma atividade que o deixe longe do balcão pode comprometer sua felicidade e realização profissionais, e existem outras formas de recompensar um bom funcionário.
Isso não é uma regra: Maiza é supervisora da Ótica Ernesto, Francisco Souza, José Pires Montenegro e José Carlos Albano, que já foram vendedores campeões na Casa dos Relojoeiros, hoje são gerentes de diversas divisões da empresa. Já Rogério, da Itamaraty, admite que não conseguiria perder o contato direto com o público. Sueli, depois de se aposentar como gerente nas Óticas do Povo, voltou para o balcão por escolha própria. "Não consegui ficar longe. Eu amo vender", confessa.


A Arte de Criar Laços
   
Maiza Carvalho
Supervisora da Ótica Ernesto, Salvador/BA
22 anos de Ótica Ernesto e 27 de óptica

Maiza nunca trabalhou em outra área; atua em óptica desde os 14 anos, quando começou como caixa. Seis meses mais tarde, foi para o balcão. Aos 19, foi para a Ernesto, onde está até hoje.
"O mais interessante são os encontros entre as pessoas. Saber que um cliente é amigo, criar laços é muito bom. É uma profissão que influencia os outros; somos formadores de opiniões. Quantas vezes alguém não quer mudar o visual e está esperando apenas um incentivo? Adoro ajudar a transformar as pessoas e depois ver a satisfação estampada em seus rostos."
Seu nome é trabalho
   
Marluce Oliveira
Profissional de balcão da Flu Look Express, Maceió/AL
22 anos de óptica e de Flu Look

Se Marluce tivesse outro nome seria Dona Disposição. A pesada jornada diária de 15 horas de trabalho vai de segunda a sábado, às vezes sem pausa para o almoço. O cliente é que manda; o estômago sempre fica para depois.
Antes de trabalhar em óptica, vendia roupas e calçados. "Não há diferença. O importante é saber vender e ser honesta, orientando e mostrando opções", ensina a profissional que só não trabalha aos domingos porque os patrões a proíbem. Afinal, se até Deus descansou no sétimo dia, por que Marluce não deveria fazê-lo?
O eterno vendedor
   
Rogério Silva
Profissional de balcão das Ópticas Itamaraty, Fortaleza/CE
22 anos de óptica e de Itamaraty

Quando, menino, trabalhava no setor de entregas e já sabia que par de óculos pertencia a cada cliente antes mesmo de a pessoa dizer seu nome. Gravava a fisionomia de todos e o balcão sempre lhe chamou atenção. "É a oportunidade de ajudar a solucionar os problemas das pessoas, conversar, criar amigos. Sempre me considerei um vendedor, afinal, vendia a imagem da empresa com a qualidade do meu trabalho" avalia.
Além de seu carisma natural, Rogério se dedica e gosta muito do que faz. "Para ser um bom vendedor tem de conhecer muito, estudar e saber lidar bem com a competição. E ser bom não é apenas tirar o primeiro lugar no fim do mês. Bom vendedor é o que fica gravado na mente do cliente", resume.
Uma equipe afinada

   
Equipe da Casa dos Relojoeiros, Fortaleza/CE
Francisco Souza (Franco), 14 anos de empresa, gerente da regional de São Luís/MA
Vicente Paulo Oliveira, 19 anos de casa, óptico master
José Pires Montenegro (Pires), 20 anos de casa, gerente da loja do Shopping Iguatemi
José Carlos Albano, 19 anos de empresa, gerente da regional do Cariri/CE

A equipe da Casa dos Relojoeiros tem uma interessante característica: todos, com exceção de José Pires Montenegro, hoje gerente de uma das lojas, começaram como office-boys. Com o passar do tempo, passaram para outras funções e atualmente coordenam diversas áreas da empresa.
Essa trajetória é importante, segundo eles, pois conhecem bem a empresa e estão aptos a destacar seus pontos fortes, além de detectar o que deve ser aprimorado.
O amor pelo balcão
   
Sueli Armaroli
Profissional de balcão das Óticas do Povo, Rio de Janeiro/RJ
20 anos de empresa

Ela é um caso à parte: se aposentou como gerente, mas voltou a trabalhar no balcão. Ensina que o importante é transmitir confiança e deixar o cliente à vontade. "Quando o consumidor percebe que o profissional de balcão oferece várias opções de modelos, diversos orçamentos e preocupa-se em explicar e acompanha a adaptação, deixa-se conquistar para sempre." Sueli é partidária da teoria que o profissional deve reunir todas as "armas" para se aprimorar no balcão, estudando estética, etiqueta, aspectos técnicos, moda etc.
Atividade prazerosa
   
Dalva Lucena
Gerente da Clock’s, Recife/PE
11 anos de Clock’s e 19 anos de óptica

Dalva foi logo promovida. Destaque nas vendas, com nove meses de casa já era gerente da Clock’s. A mudança, no entanto, não foi motivo para sentir saudades do balcão, já que os gerentes também atendem nessa rede de ópticas pernambucanas. "O trabalho é muito prazeroso. Cuida do visual, aproxima cliente e vendedor, e exige psicologia", admite Dalva.
Os míopes – especialmente aqueles de altas dioptrias - são um desafio especial para Dalva, que os considera mais detalhistas e exigentes, além de muito preocupados com o visual. Uma de suas histórias mais inusitadas no balcão se deu ainda no começo da carreira: uma senhora levou cinco horas para escolher os óculos com lentes bifocais: "ela devia ter uns 70 anos e achava que os óculos iam lhe trazer mais rugas", diverte-se ao lembrar.


Faça a sua parte
(para profissionais de balcão)


Ninguém nasce sabendo. Por isso, vale ficar ligado em dicas que podem ajudar - e muito - a performance do profissional de balcão durante o atendimento

1. Mantenha-se sempre atualizado com tendências, novidades e assuntos relativos à óptica. A leitura funciona como um grande auxílio, seja cultura geral, revistas especializadas e de moda. Use e abuse!
2. Tenha em mente que vender óculos é muito mais que oferecer determinado modelo de armação e lentes. Isso é apenas tirar pedido. É preciso orientar: conhecer o perfil do cliente, captar suas necessidades, preocupar-se com seu conforto antes, durante e depois. Faça cursos técnicos, assista a palestras e participe de
3. eventos do setor
4. Conheça bem os produtos que o mercado oferece bem como o estoque da loja
5. Foque as atenções no cliente durante o atendimento
6. Apresente também modelos diferentes e ousados para os clientes, saindo do convencional. É sinal de que você está atualizado com as tendências atuais
7. Troque idéias e experiências: o trabalho é melhor quando feito em equipe
8. Personalize o atendimento, prestando atenção no comportamento do cliente
9. Seja sincero, honesto, paciente, educado e cordial com cada pessoa que entre na loja, mesmo que só esteja dando aquela "olhadinha"
10. Use óculos mesmo que não precise de correção - as lentes planas estão aí para isso. Essa estratégia promove uma aproximação automática com o cliente, que se sente mais à vontade quando tem diante de si alguém na mesma condição
11. Esforce-se para gravar nomes e fisionomias. Qualquer pessoa gosta de ser lembrada, especialmente quando é chamada pelo nome
12. Ame seu trabalho. É essencial para o sucesso de qualquer função


Faça a sua parte
(para chefes)


Não é somente de esforço próprio que se faz um bom profissional de balcão. A empresa e seus líderes podem estimular consideravelmente o desenvolvimento de suas equipes de venda

1. Ofereça e incentive treinamentos, palestras, cursos e atualização profissionais
2. Facilite o acesso a informações sobre óptica
3. Ouça o que o vendedor tem a dizer. Ele é a conexão direta com o patrimônio mais valioso de qualquer empresa: o cliente
4. Preste atenção na vocação de cada funcionário. Uns se dão bem em cargos de supervisão e gerência, outros não. E a promoção não é a única forma de premiar um bom desempenho



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