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"Tem mas acabou"


Andrea Tavares é editora da View
A frase aí de cima só faz sentido se eu estiver dentro de uma loja de discos, e alguém perguntar sobre o CD do conjunto pop mineiro Pato Fu. Mas não é o caso: aparentemente engraçada, a frase contaminou o atendimento do varejo brasileiro.
Nem sempre é preciso pronunciar as três palavrinhas mágicas para consumar a situação. Há atitudes "tem mas acabou": umas motivadas pelo medo, outras pela falta de honestidade e ainda aquelas caracterizadas pelo deboche puro.
Em geral, até vêm revestidas de um tom educado (fora a do deboche), mas sem o poder de eliminar a frustração do consumidor. Chego a pensar que o "tem mas acabou" é uma versão abreviada e corrompida do honesto "Não tem mais. Acabou". Será?
Se a loja não tem o que o cliente deseja, por que então não assumir de forma honesta e tentar reverter a situação? Pode-se tentar encantá-lo com outras opções ou, então, virar-se do avesso para conseguir o que o ele quer. Já ouvi histórias - com as quais vibro, diga-se de passagem - de gente que chegou a comprar o produto no concorrente e pagou o preço que foi pedido apenas para não frustrar seu cliente. Isso não precisa se tornar rotina, se não a loja vai à falência, mas, quando o consumidor percebe a dedicação que lhe devotam, em geral se deixará conquistar para sempre...
Outro dia, no Rio de Janeiro, fui com amigos a uma recém-inaugurada franquia de uma rede norte-americana de restaurantes. Já estava acostumada com o estilão da casa por freqüentá-la em outros lugares. Varri o cardápio em busca de meu drink preferido e pedi de imediato. Qual não foi a minha surpresa ao perceber que o vírus do "tem mas acabou" já tinha chegado lá?! A mocinha veio me dizer tinha o drink, mas como todos os liquidificadores estavam com defeito, não poderia prepará-lo. Então, para que dizer que tem se não tem? Ora, sinceridade é fundamental. Assume que não tem e pronto!

"Se a loja não tem o que o cliente deseja, por que então não assumir de forma honesta e tentar reverter a situação? Ora, sinceridade é fundamental."


Ainda dei uma chance e achei que a casa, imbuída de sua cidadania norte-americana, estivesse colaborando ferrenhamente com o racionamento de energia. Pura ilusão! "Houve pane nos liquidificadores", disse ela. Como assim, pane? Quem tem pane é avião! Será que não existia um liquidificador disponível em algum lugar para atender os pedidos dos clientes? Nem que o gerente trouxesse o da sua própria casa!!! As falhas no atendimento não pararam por aí e resolvemos jantar em outro lugar. Mais que ir embora naquela noite, me pergunto: quem vai me fazer resgatar a confiança que eu depositava na casa, de que eu gostava até do nome, uma feliz brincadeira com o meu dia da semana preferido? Enfim, vamos deixar o "tem mas acabou" para o Pato Fu e as lojas de discos...
Bem, mas também não estou aqui para contar apenas passagens ruins. Na próxima edição, tenho uma história bem legal para dividir com vocês.

P.S.: não podia encerrar essa coluna sem agradecer a todos pelo carinho recebido durante a feira. São quatro dias de muito trabalho, porém extremamente recompensadores pela enorme satisfação e a emoção de encontrar os velhos amigos e fazer outros novos. De coração, muito obrigada a todos!



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