Desidério Farkas, de desenhista desempregado de fábrica de armas na Hungria, a empresário bem-sucedido de fotografia e óptica no Brasil |
"A Fotoptica começou em 1920 com a vinda de meu pai, Desidério Farkas, e de minha mãe, Tereza. Na Hungria, ele era desenhista em uma fábrica de armas, que fechou após a guerra e assim ficou sem trabalho. Quem o convenceu a vir para o Brasil foi meu tio Bela. Por já conhecer - e adorar -, acreditava muito no potencial do país e, então, ajudou meu pai a montar uma empresa de óptica e fotografia, cuja primeira loja foi aberta na Rua São Bento, no atual centro velho de São Paulo, coração da cidade. A escolha pelo ramo teve como influência o fato de o senhor Emil, meu avô materno, ser dono de uma loja de fotografia em Budapeste, capital húngara. |
Tio Harry, cunhado do meu pai que chegou ao Brasil bem depois da fundação da Fotoptica, convenceu-o de que óptica era mau negócio. Com isso, transferiu o setor de óptica para Tio Harry, que abriu a Fotopan, na Avenida São João. Mais tarde, meu pai viu que óptica era de fato um bom negócio e refez o setor. O que não foi tão complicado, já que os fornecedores de máquinas fotográficas também fabricavam lentes para óculos. Mesmo assim, a fotografia se manteve como principal área de atuação por muito tempo.
Gosto por fotografia e cinema - Passei a freqüentar a Fotoptica aos 18 anos, quando entrei na Escola Politécnica. Morávamos próximos à Avenida Paulista, em uma travessinha na esquina com a Rua da Consolação. Eu pegava o bonde, descia na Praça Ramos, atravessava o Viaduto do Chá e seguia pela Rua São Bento até o Largo São Bento. Ali eu pegava o bonde para a escola. Assim, passava na Fotoptica tanto na ida como na volta. Entrava todos os dias e aí peguei gosto. Além disso, eu era filho único. Sempre adorei fotografia e cinema, mas nunca fui um homem de negócios. Para tocar essa parte, contei com uma boa equipe. |

Filho único: Thomaz Farkas saía da escola e sempre passava na loja do pai |
Em 1947, concluí os estudos e passei a me dedicar com exclusividade à Fotoptica. O curso de Engenharia permitiu que eu projetasse os laboratórios da empresa. Também fiz curso de óptico prático, tenho até o diploma. Eu me dediquei muito: sempre interessado, queria saber o que estava acontecendo.
Depois, eu e meu pai fizemos uma sociedade com Adolfo Ratzersdorfer, da Ótica Foto Moderna, e montamos uma loja na rua Barão de Itapetininga. Outra na mesma rua foi aberta em sociedade com meu tio Ladislau, que veio da Hungria para trabalhar com meu pai, e tinha idéias modernas: contratou Bernhard Rudofsky para fazer o logotipo da Fotoptica. A segunda versão foi feita por um designer chamado Wolner. O logo usado até hoje foi criado pelo meu filho, o designer Ricardo Farkas, mais conhecido como Kiko.
"Os funcionários tinham os seus clientes preferidos da mesma forma que os clientes tinham seus funcionários favoritos. Era a fidelidade de pessoa a pessoa."

Evidência: o amor do menino Thomaz pela fotografia e o cinema começou cedo. A máquina fotográfica que carregava a tiracolo está aí para provar
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‘Vocês são nós’ - Dedicação à empresa era uma marca tanto minha quanto de meu pai. Ganhávamos um bom dinheiro e quem vinha trabalhar com a gente era bem remunerado, prestigiado e instruído. Eu dizia-lhes: ‘façam de conta que vocês são eu. Quer dizer, vocês são nós, a família’. Com isso, todos se imbuíram do lema principal da Fotoptica: ‘o cliente sempre tem razão, mesmo quando não tem’.
Vários dos funcionários da Fotoptica daqueles dias e de pouco tempo atrás abriram suas próprias ópticas. Dois exemplos importantes são Francisco Ventura (já falecido) da Ótica Elegante e Raul Pinho, da óptica que leva o mesmo nome.
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Ambos sempre tiveram muito carinho pela empresa e, sempre que os encontrava, ouvia-os falar da Fotoptica com muito prazer. Penso que as pessoas têm lembranças boas porque a empresa era muito paternalista e tudo funcionava muito direitinho.
Em julho, ao visitar a Óptica 2001, no Expo Center Norte, em São Paulo, fiquei lisonjeado ao ser reconhecido por vários proprietários de ópticas. Quando trabalhava no centro, de fato todo mundo se conhecia - e não apenas quem era do ramo. Estacionava o carro no Vale do Anhangabaú e andava cumprimentando as pessoas. O centro era extremamente atraente com seus bons restaurantes e cafés. Acompanhei as mudanças, o crescimento da região e gosto de ver hoje sua revitalização. Sempre que posso, passeio por lá: continua sendo fascinante.
Liderança incontestável - O que ajudou a empresa a crescer foi o nome que construiu e o fato de haver poucas ópticas e casas de fotografia de envergadura como a Fotoptica, que sempre foi a maior da Rua São Bento. Era uma loja maravilhosa, grande e vistosa. Quando abrimos uma filial na Rua Conselheiro Crispiniano, ainda tínhamos dúvida se iria dar certo ou não. |

Passagem de ano: os funcionários de uma das lojas da Fotoptica comemoram o 31 de dezembro
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Mas o ponto se mostrou dos melhores, pois o Mappin (importante loja de departamentos, um marco na história da cidade) foi aberto nas redondezas e o varejo da região seguiu tal tendência. O sucesso foi tanto que ali se tornou nossa nova sede.
Na época, apenas o colega Rangel (dono de A Especialista) fazia concorrência, já que tinha muita amizade com os médicos na época chamados de oculistas. Em fotografia, a Kosmos Foto, serviço de laboratório na Rua São Bento, também fazia frente. A Lutz Ferrando chegou a disputar mercado, mas não por muito tempo. A verdade é que a Fotoptica manteve a liderança.
Catálogos e fidelização

Evidência: o amor do menino Thomaz pela fotografia e o cinema começou cedo. A máquina fotográfica que carregava a tiracolo está aí para provar
Para divulgar a fotografia, fazíamos catálogos, enviados pelo correio para mais de 100 mil clientes no Brasil.
A pessoa escolhia o produto e pagava por reembolso. No começo, era meu próprio pai quem desenhava. Há uma forte veia artística na família: além do Kiko, que é designer, tenho dois filhos que têm a arte muito presente em suas vidas. Pedro é fotógrafo de cinema e João, que já trabalhou com fotografia, é poeta.
Também anunciávamos em jornais. Nesse aspecto, o desenhista gráfico húngaro, Jorge Rado, grande amigo do meu tio Ladislau, deu uma grande colaboração.
Todo mundo falava bem das nossas publicações e promoções. Criamos a Carteira da Boa Visão, de olho na fidelização: ao adquirir um par de óculos na Fotoptica, o cliente tinha uma cruz marcada em sua carteira, o que lhe garantia um par de óculos gratuito após um determinado número de compras. Nosso diferencial era o atendimento: os funcionários tinham os seus clientes preferidos da mesma forma que os clientes tinham seus funcionários favoritos. Era a fidelidade de pessoa a pessoa.
Minha equipe de trabalho era formada por Alberto Arroyo, Pedro Zuppo e o amigo Geraldo. Mais tarde, Henrique Macedo integrou-se à turma, que assumiu o dia-a-dia da Fotoptica e eu ficava mais na supervisão geral. Assim, sobrava um pouco de tempo para me dedicar à fotografia. Desde os seis, sete anos de idade, eu era completamente fascinado pelo processo de captação das imagens.
"Em julho, ao visitar a Óptica 2001, no Expo Center Norte, em São Paulo, fiquei lisonjeado ao ser reconhecido por vários proprietários de ópticas."
Trajetória pessoal - Laboratório também me interessava, e nesse ponto a Engenharia ajudou: tinha uma cabeça boa para mexer com isso. Como na loja havia câmeras de cinema, sempre brincava. Usei primeiro a 8 milímetros, depois a 16 milímetros; sempre tinha uma em casa. Se guardasse todas, seria uma coleção de dez ou quinze. Eu tinha desde aquela máquina da Kodak, que trocava o chassi com o filme dentro, até uma Graflex, uma enorme 4x5.
Enquanto estava na Escola Politécnica, fiz um documentário sobre a cidade de Santos, no litoral paulista, e alguns filmes mais familiares. A partir de 1964, fizemos o que chamo de Caravana Farkas dos filmes pelo Nordeste do país - durante quatro, cinco anos, viajamos pela região, produzindo documentários. |

Tradicional: a Fotoptica foi uma das primeiras a se instalar no Centro de São Paulo |
No segundo ano de existência da Escola de Comunicação e Artes da Universidade de São Paulo (ECA/USP), fui chamado para dar aulas de fotografia. Procurei investir na vida acadêmica, mas por motivos políticos meu doutorado atrasou vários anos. Cinema, já não faço mais. Talvez volte um dia. Ainda fotografo com câmera manual - a automática é para amadores, para a criançada -, e as exposições que até hoje faço são compostas de material antigo.

História: sermpre trabalhando com óptica e foto, a loja existe há 81 anos

Espaço exclusivo: a área reservada à óptica em uma das lojas da Fotoptica
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Fotoptica hoje - Em 1998, como meus filhos mostraram outros interesses e nenhum se candidatou a assumir a empresa, a Fotoptica foi vendida. Fiquei feliz por poder ajudá-los a tocar seus projetos pessoais. Os atuais proprietários reformaram as lojas, criaram um novo visual e aumentaram a rede - estão fazendo franchising. Compraram um nome forte e estão fazendo força para conservá-lo.
Tenho, inclusive, um bom contato com a direção atual. Por meio de uma consultoria informal, ajudo-os a manter a tradição da empresa. Inicialmente, percebi que o atendimento havia sofrido com as mudanças - o comissionamento dos funcionários havia sido eliminado e, funcionários antigos, substituídos -, mas minhas sugestões foram ouvidas e atendidas. Hoje, a fotografia passou para o campo da eletrônica e a Fotoptica enfrenta novos concorrentes, mas a óptica continua bem firme.
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"É muito interessante ver que, mesmo depois de 81 anos, o nome Fotoptica continua fortíssimo e isso se deve a todos nós. Não há nenhuma outra firma do ramo que exista há tanto tempo com tanto prestígio."
Divirta-se e inspire-se: se sua óptica tiver mais de 50 anos, entre em contato com a redação da View e participe deste projeto.
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