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Poucos produtos no mundo têm o privilégio de serem re-conhecidos à distância, ou até mesmo de perto, sem que uma marca esteja estampada neles. É preciso ser muito especial para que se atinja esse patamar, uma honra e tanto. O nome de Alain Mikli é dos que repousa confortavelmente nesse panteom. Esse francês conseguiu uma particularidade tão grande no design, que seus óculos são facilmente identificados em quaisquer rostos. |
É difícil explicar exatamente o que é, mas quem tem um “convívio básico” com suas peças e um mínimo de olho clínico, é capaz de associá-las a esse que é o maior desig-ner óptico independente.
Tudo começou no fim dos anos 70 ou início dos anos 80 – ele mesmo não consegue precisar –, quando, depois de se formar em óptica, partiu para a criação de uma coleção de óculos e a abertura de uma loja com seu nome. Mais ou menos como fazem até hoje os profissionais que desejam se estabelecer nes-se segmento - contingente formado, em sua maioria, por eu-ropeus. Mas o detalhe é que além de ter 20 anos de “vantagem”, ele é um visionário e carrega consigo o lema de que é preciso fa-zer o que se gosta, com muita paixão. Esse último é, sem dúvida, um ingrediente insubstituível na receita do sucesso.
Mais que o talento para o design, Alain Mikli parece que está sempre à frente de seu tempo. Começou como todos os designers ópticos independentes, mas trilhou um caminho único. Seu trabalho seduz pessoas de todas as partes do mundo. Lá pelos idos de 1984, virou inicialmente suas lentes para o Japão e desde então nutre uma relação muito especial com a Ásia, é um verdadeiro ídolo entre os usuários de óculos do País do Sol Nas-cente e também da China. Por falar em virar suas lentes para al-guma parte do mundo, Mikli parece agora animado com as Amé-ricas, em particular o Brasil. Está em negociações superavan-çadas para ter a Bright Eyes, empresa de Mauro Miranda e Da-niela Diniz, como a sua representante no país.
Graças ao perfil conceitual, suas lojas – atualmente, são no-ve, espalhadas pela Europa, os Estados Unidos e a Ásia – atingiram um status de butiques desejadas por qualquer cidade hype do mundo. Nunca foram simples ópticas, ainda mais depois que lançou sua coleção de roupas (no final da década de 90) e, mais recentemente, as bolsas, as bem-humoradas e coloridas bolsas, confeccionadas com as mesmas chapas de acetato de seus óculos. Ele proporcionou às mulheres a possibilidade de não apenas usar óculos estilosos e especialíssimos, mas também de combiná-los com bolsas. Agradou em cheio mais uma vez.
Enquanto todos os célebres e top designers de moda de-bruçaram-se sobre o universo óptico na última década para criar suas coleções de óculos, Mikli destacou-se por fazer o cami-nho inverso com a maior tranqüilidade do mundo e ainda confessa que não tem a menor intenção de ter as roupas como seu negócio principal. Sua praia, definitivamente, são os óculos. Seus fiéis consumidores agradecem.
O mais curioso é que assume que lançou roupas e bolsas muito mais para se divertir e se posicionar globalmente na es-tratégia de suas lojas do que fazer dinheiro. Aliás, essa é uma de suas características: a transparência de suas opiniões e uma personalidade despida da capacidade de jogar com as palavras para um lado e para outro, inferno para todo e qualquer jornalista que preza um trabalho de qualidade. Sem falar na sua simplicidade, simpatia e bom humor.
Como você vê o mercado óptico em geral?
É um setor em crescimento, com muitas possibilidades. Está se tornando um mercado muito atraente, como o de moda, o de perfumes e isso é muito bom. Realmente é uma indústria em as-censão e há muito que fazer nos próximos cinco anos.
Companhias como Luxottica e Sàfilo têm realizado um trabalho muito bom, trazendo conceitos de moda à indústria de armações. Com isso, as empresas pequenas de designers ópticos como Beausoleil, Face a Face, L.A. Eyeworks e Oliver Peo-ples, por exemplo, podem se ver em maus lençóis. As grandes companhias estão muito poderosas, fazem tanto ótimas arma-ções quanto belos óculos solares, criam novos estilos e a concorrência é, cada vez mais, entre poucos.
“Nos dias de hoje,
os consumidores sabem mais sobre as novidades, sejam tendências,
produtos, cores
ou estilos de cada griffe
do que os próprios ópticos. Isso ocorre porque a
maioria dos ópticos não
é curiosa, não tenta saber
o que está acontecendo
à sua volta.”
Já que você falou dos próximos cinco anos, quais suas perspectivas para o período em termos de tendências de design de óculos?
Hoje em dia, o prazer está em usar determinado produto e não em seguir uma determinada moda. Isso é excelente, porque se tem a oportunidade de levar ao consumidor muitas coisas diferentes. Há muitos tipos, cores e formatos diversos. Os consumidores estão prontos para usar óculos, muito mais do que há cinco anos.
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O que falta agora é propaganda e haverá mais investimentos nessa área. Falta também uma lente de contato ainda mais barata para concorrer com a convencional, o que deve ocorrer nos próximos anos.
É mais uma questão de estilo...
Sim. É uma questão de estilo pessoal: o que somos, o que queremos ser hoje ou esta semana e com qual atitude. Os óculos permitem mostrar hoje não apenas uma face. É possível brincar com o produto, mostrar diferentes personalidades e diferentes rostos. Não há mais comentários do gênero “este ano, esta é a tendência” ou “este é o produto” e “todos têm de usar isso”. É como a moda: ao o-lhar as pessoas nas ruas, pode-se perceber até similaridades em suas roupas, mas não são todas iguais. Como já disse, o sentimento de prazer em usar um de-terminado produto é muito importante.
Por que você decidiu não expor mais na Mido [por muitos anos, Mikli foi presença garantida na principal feira de óptica do mundo, realizada anualmente na cidade italiana de Milão, e neste ano optou por um espaço independente, um charmoso e espaçoso galpão em uma área próxima do evento, em que expôs suas coleções de óculos, roupas e bolsas]?
Queremos estar muito mais próximos dos nossos clientes e aproveitar sua companhia. É um grande prazer estar com eles. Aproveitamos o tempo para conversar e ver todas as coleções.
Quando um cliente vem até aqui, fica, pelo menos, de duas a cinco horas. Se fosse na feira, não passaria mais de 30 minutos no stand. Lá o clima é muito acelerado e intenso e ninguém tem tempo para nada e nossos clientes acabam não tendo tempo para apreciar o nosso produto, para nos ouvir, nem para ver o que estamos fazendo e isso não é legal.
A mudança ocorreu em parte pelos clientes mas também pelo time Mikli. Eu tenho apenas uma equipe, não uma diferente para cada país. Hoje, se chega um cliente brasileiro, por exemplo, alguém dos Estados Unidos ou da França poderá atendê-lo com o mesmo padrão de serviço. Por isso, é um prazer trabalhar e apreciar o que estamos fazendo. Não é apenas uma obrigação.
Como você divide seu tempo para controlar a corporação e ainda criar óculos, roupas e bolsas?
Eu não controlo, gerencio bons pro-fissionais que gostam de trabalhar para mim e tomam conta do negócio. Eles confiam em mim, eu confio neles e traba-lhamos juntos. Minha missão agora é tra-zer diferentes idéias e diferentes concei-tos para os produtos e para a empresa. Desde que isso começou a funcionar, mi-nha vida tornou-se bem mais fácil. Quan-do conversamos pela primeira vez, há quatro anos, tudo era muito mais difícil, porque eu tinha de controlar, gerenciar e fazer muitas coisas.
Já faz quatro anos de nossa primeira entrevista. O que mudou desde então?
Muitas coisas. O tamanho da em-presa, a maneira como trabalhamos, o meu jeito de criar, mas o mais importante é que hoje me sinto mais livre para fazer o que quiser. Tenho muitas, muitas idéias diferentes em mente e algumas delas eu já tenho há dez anos, mas, na época, não tinha o conhecimento e a experiência pa-ra colocá-las em produção. Hoje, a em-presa é mais poderosa, tem mais dinheiro para gastar em design, na pesquisa e no desenvolvimento dos novos conceitos.
A coleção de roupas é um bom exemplo: investi muito dinheiro para fazê-la e não tive retorno, mas insisti em fazer, porque, realmente, é um prazer para mim e não quero parar. O mesmo vale para as bolsas: são muito especiais, eu não faço di-nheiro com elas, mas não é uma questão de fazer dinheiro com tudo. Faço bons negócios com a linha de óculos, a empresa é lu-crativa, mas eu preciso realizar algo mais para melhorar a estra-tégia global com diferentes produtos.
Por que você decidiu abrir lojas próprias?
Inaugurei a primeira há cerca de 20 anos e atualmente são nove. Lojas próprias são, hoje, uma grande estratégia. Criamos uma identidade própria muito forte: o tipo de loja ideal, a escolha do espaço e das cidades, com o objetivo de trazer ao negócio mais poder para transmitir o conceito e a imagem da marca Alain Mikli e também para mostrar aos nossos clientes ópticos como trabalhar com o produto, a forma de expô-lo na loja etc.
Ainda em 2002, abriremos uma loja em Milão [Itália]. Em 2003, temos planos para várias cidades da Europa.
Como é vender óculos, roupas e bolsas?
É um conceito global. Óculos são o negócio principal, mas também tenho uma pequena coleção de roupas e bolsas. Não muitas, porque eu não quero ser um estilista de moda; meu de-sejo é fazer apenas algumas roupas conceituais.
Eu não tento colocar tanta pressão nas roupas como faço com óculos e armações. Não quero de fato transformar-me nu-ma empresa de moda, é muito difícil. Do jeito que faço hoje em dia é perfeito para mim, porque o mercado não me pressiona pa-ra estar pronto em determinado momento, fazer desfiles etc. Mostro a minha coleção quando estiver pronta e, se não estiver, não tenho de mostrar nada. E quero permanecer assim. Além disso, há designers de moda muito bons e eu não vejo formas de como competir com eles.
“É uma questão de estilo
pessoal: o que somos, o
que queremos ser hoje ou esta semana e com qual atitude.
Os óculos permitem mostrar hoje não apenas uma face.
É possível brincar com o produto, mostrar diferentes persona-lidades e diferentes rostos.”
E, como um designer de moda, você seria mais apenas um e seu perfil de trabalho é muito especial...
Se eu tivesse de estabelecer um negócio de roupas efetivo, teria de mudar meu conceito, cada vez fazer mais peças... Quero manter meu princípio de estar fora do mercado da moda. Minhas roupas não são moda, mas conceituais e confortáveis. E se um dia se tornarem moda, verei o que fazer, mas hoje digo que não quero isso. É impossível para mim, nesse momento, ser bom nas duas frentes. Eu tenho de decidir: a moda ou os óculos.
Você tem fábrica própria? Como é o processo de produção dos seus óculos?
Tenho parcerias com várias fábricas diferentes ao redor do mundo em quatro países (França, Alemanha, Japão e China). É um processo trabalhoso. Invisto em algumas delas quando preciso introduzir uma nova tecnologia ou produto para desenvolver, mas não quero ser responsável diretamente pela fabricação.
É muito trabalho e, além disso, quero estar mais perto dos clientes e dos consumidores. As pessoas das fábricas que trabalham para mim são muito próximas, conhecem alguns clientes e fazem parte da “família”. A relação tem de ser muito estreita, porque eles precisam manter seguros os segredos do que estou fazendo, dos conceitos, dos detalhes técnicos e a maioria das ar-mações é muito difícil de ser fabricada.
Por que você é tão orientado para a Ásia? Você ama a Ásia ou é a Ásia que o ama?
Ambos. Não sei se os brasileiros me amam... [risos]. Eu vou para a Ásia há muitos anos. Eu iniciei pelo Japão por volta de 1984. O início foi difícil, porque trabalhar com japoneses é terrí-vel, um mundo à parte. Eu tentei, tentei e um dia decidi que era de fato impossível e que eu tinha de abrir minha própria subsidiária no país.
Desde então, os negócios começaram a crescer e crescem até hoje. Em novembro, abri uma nova loja em Hong Kong; em breve, a de Xangai vai ser reformulada para se enquadrar no conceito atual de loja Alain Mikli e ainda quero abrir outros pontos-de-venda na Ásia.
Agora, minha meta é cuidar de duas novas áreas no mundo: alguns países do Oriente Médio e as Américas, principalmente o Brasil e o México. Fico muito surpreso, porque há mui-tos clientes brasileiros na minha loja de Paris e que gostam de gastar muito dinheiro e que são muito gentis.
O que você acha que um óptico tem de fazer para ter sucesso?
Em primeiro lugar, tem de gostar do que faz e compartilhar com seus clientes o seu prazer de mostrar e vender seus produtos. Infelizmente, muitos ópticos têm medo e não acreditam no seu próprio trabalho. Eles têm de buscar mais prazer no que fazem. Hoje, vejo que aqueles que começam a pensar dessa forma têm se dado muito bem e aqueles mais tradicionais nem tanto.
A maioria é muito conservadora...
Muitos são muito conservadores. E o detalhe é que, nos dias de hoje, os consumidores sabem mais sobre as novidades, sejam tendências, produtos, cores ou estilos de cada griffe do que os próprios ópticos. Isso ocorre porque a maioria deles não é curiosa, se alienou e não tenta saber o que está acontecendo à sua volta. Eles dizem “eu conheço muito bem o meu negócio, eu sei que posso vender esse aqui, essa cor sim, aquela não, porque aquela cor ninguém vai comprar...”. Por que não? A tal pe-ça desprezada pode ser um novo caminho, uma nova direção. Os ópticos têm de estar perto dos consumidores, saber aquilo o que eles estão pensando.
Como você pode se dar tão bem fazendo coisas dife-rentes e sempre inovando?
Tudo vem em um estalo, sem pressão. Meu trabalho é um prazer e quando se faz prazer, a criatividade surge naturalmente.