Texto Sabrina Duran Fotos André Penteado Concepção Andrea Tavares, Sabrina Duran e André Penteado
Não dava para encerrar esse espaço em que os colaboradores Sabrina Duran e André Penteado atuam como anfitriões de uma sensacional incursão pela terra da rainha, mostrando pontos altos do conhecimento e da criatividade, sem falar de diversidade, um dos pontos que faz de Londres uma das capitais mais criativas e vanguardistas do mundo.
Mas, antes, vale explicar o porquê do título “Mind the glasses”. Tudo começou em 2004, quando, após uma temporada londrina, a colaboradora de longa data, Cíntia Marcucci, relatou algumas curiosidades relacionadas ao Planeta óculos na cidade e batizou a matéria com esse título, publicada na VIEW 58.
Na época, Cíntia definiu-a muito bem aos leitores: “passei pouco mais de oito meses vivendo do jeito que inglês gosta, o que costumei chamar de ‘mind the gap way of life’. Eu explico: ‘mind the gap’ é a frase repetida a cada minuto nas estações de metrô locais e significa ‘tome cuidado com o vão’ existente entre a plataforma de embarque e os trens. Lá, eles prestam atenção em tudo e tomam cuidado com tudo, especialmente se não estão atrapalhando o próximo, isto é, existe um respeito muito grande pelo espaço de cada um – daí o ‘estilo de vida mind the gap’. Por isso, também a brincadeira do título: ‘mind the glasses’, algo como ‘preste atenção nos óculos’”.
Seguindo o caminho de Cíntia, Sabrina e André foram além dos óculos e propuseram reflexões sobre temas bem interessantes. E agora trazem a última parte sobre esse fascinante pedaço de mundo chamado Londres.
Olhar o mundo através de lentes diversas
Promover as diferenças de cada pessoa está longe de ser uma porta aberta para a discriminação preconceituosa. Se for consciente e respeitoso, esse estímulo pode, inclusive, tornar empresas e sociedades inteiras mais criativas e prósperas. É o que mostra o episódio de despedida de Mind the glasses.
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O motorista do ônibus que vai para a Oxford Street, rua no centro de Londres, está por trás do volante vestindo o uniforme da empresa que, por acaso, casa perfeitamente com o turbante branco e alto que traz enrolado na cabeça. É um indiano de religião hindu, está claro. O condutor da linha que leva a Leyton, bairro a noroeste da cidade, veste o mesmo uniforme e, na cabeça, sustenta tranças de grosso calibre que parecem estar ali há uns bons anos. É jamaicano, sem dúvida, e de religião rastafári. O motorista uniformizado da linha Marylebonne é punk, usa piercings no nariz, lábios, orelhas e ostenta um moicano pink. O da linha Elephant and Castle é muçulmano – vê-se pela longa barba e a touca típica que veste. E assim, outros tantos exemplos "não ortodoxos" poderiam ser dados para descrever uma das classes de trabalhadores mais diversas da capital inglesa, os motoristas de ônibus.
Não há figurino extravagante nem cultura ou nacionalidades distintas que sejam menos úteis ou pouco respeitados em Londres, a capital mundial dos imigrantes. Aqui, culturas díspares – e muitas vezes rivais em seus países de origem – convivem pacificamente e colaboraram para dar forma ao rosto da cidade mais multicultural do mundo. "Vir a Londres é muito mais do que visitar a capital da Inglaterra. Por isso, o slogan da campanha de marketing do Visit London é veja o mundo, venha para Londres", conta a gerente de relações públicas órgão do governo londrino responsável por estimular o turismo na cidade, Jacqueline French.
Em Londres, são faladas pelo menos 70 línguas, proferidas em cada esquina, nos bares, nas universidades, nas empresas e no transporte público por pessoas de todas as partes do mundo. Tantas culturas assim, subsistindo e se imiscuindo uma na outra em toda a malha social, poderiam muito bem viver em situação de conflito constante, como se vê, por exemplo, ocorrer em países da África, onde cidadãos de uma mesma região, porém pertencentes a tribos distintas, deflagram guerras civis.
Londres está longe, mas muito longe de ser intolerante às diferenças. Pelo contrário. O governo da cidade é o primeiríssimo a estimular a convivência pacífica e frutuosa entre imigrantes e nativos, promovendo periódicos festivais de música, cinema, dança e gastronomia para dar a conhecer a cultura alheia a todos os "londoners" (do inglês, “londrinos”, termo utilizado para identificar os habitantes de Londres, mesmo os que não nasceram na cidade e, sequer, na Inglaterra). "Em vez de fazer um festival apenas inclusivo, o mais importante é compartilhar as informações. Há pouco tempo, o British Museum promoveu uma exposição sobre os grandes líderes de todos os tempos e isso incluía pessoas de diferentes nacionalidades. Tudo é uma questão de levar informação ao público. Quando se conhece a cultura, é muito mais fácil aceitá-la", explica Jacqueline.
Diversidade corporativa As empresas – especialmente as multinacionais – são também responsáveis pela promoção e o "uso" estratégico das diferenças no ambiente de negócios. Grosso modo, a diversidade (seja de nacionalidades, culturas regionais, gênero, religião, talentos e estilos), costuma produzir um ambiente mais criativo e dinâmico, propenso à descoberta de novas soluções e rapidez nas decisões, uma vez que as informações oferecidas por cada membro da equipe tendem a contemplar diversos aspectos de uma mesma realidade.
A gigante anglo-holandesa Unilever, por exemplo, produtora de alimentos e itens de higiene, faz questão de ter, em seus quadros, pessoas de vários países. Entre os 100 administradores de alto escalão da companhia, há pelo menos 20 nacionalidades. Em sua filial londrina, a Unilever possui um dos maiores ambientes multiculturais de negócios, com pessoas de diversas partes do mundo trabalhando lado a lado. Por meio do gerenciamento de talentos e processos que envolvem os funcionários, a Unilever procura promover a diversidade e usá-la nas decisões diárias da empresa.
A consultora norte-americana Lisa Stewart, que trabalhou como líder no grupo de Divisão global de diversidade da Shell, vê claros benefícios financeiros e administrativos em ambientes de trabalho multiculturais. "Quando pessoas vindas de distintas culturas assumem um desafio, uma tarefa ou pensam a respeito de vários conceitos, costumo dizer que elas olham para essa realidade através das suas próprias lentes. Isso é muito útil em um contexto empresarial, porque pensar nessas questões através de diferentes lentes pode significar uma nova e exclusiva resposta para um problema que, talvez, tenha sido olhado por cima ou sequer pensado antes. Ter times formados por pessoas tão distintas pode significar novas luzes para as empresas", exemplifica.
O Brasil, apesar de não ter o mesmo intenso fluxo de imigrantes residentes que a Inglaterra recebe ano após ano, possui, dentro das suas próprias fronteiras, uma rica diversidade cultural. Fruto dos processos de colonização e migratórios, da globalização e da proporção continental de seu território, é um país privilegiado em termos de diversidade. Basta viajar alguns quilômetros até a cidade vizinha para encontrar sotaques, culinária, música e costumes distintos do que se tem em "casa".
Sem discriminação A presença massiva de imigrantes em Londres, verdade seja dita, nem sempre é bem vista pelos nativos ingleses. Uma minoria manifesta volta e meia reclama, por meio dos jornais ou em âmbito privado, que os imigrantes que tomam em massa a cidade acabam engolindo os empregos e os benefícios do governo que "deveriam" ser dos ingleses.
Essa discussão só não ganha contornos de xenofobia institucionalizada em função das rígidas leis britânicas que coíbem o preconceito e a discriminação de qualquer gênero. Basta que uma pessoa se sinta vítima de qualquer tipo de preconceito e faça uma denúncia formal para que as autoridades deflagrem um processo de investigação e consequente punição – caso a denúncia se confirme. De forma semelhante, as empresas que pretendem fomentar a diversidade no ambiente de trabalho devem criar mecanismos sérios de repressão ao preconceito e, assim, evitar que todo o trabalho de estímulo dessa diversidade não seja minado ou perdido por conta de atitudes e comentários discriminatórios.
O tema do preconceito dos ingleses em relação aos imigrantes em Londres é assunto bastante complexo e requer a explanação de muitas variáveis, algumas até históricas. Não vem ao caso, aqui, para o propósito desta reportagem, justificar ou defender qualquer uma das partes dessa querela. Mas um fato é impossível de ser negado mesmo por aqueles que não são receptivos aos imigrantes na capital inglesa: a presença e o trabalho de pessoas de todas as partes do mundo em Londres fazem dela uma das cidades mais criativas e vanguardistas do planeta.
O mix de referências, costumes, religiões, ideais, pensamentos e até os anacronismos próprios de cada povo – mistura essa "civilizada" em nível público pelas políticas igualitárias do governo londrino – coloca a cidade em vantagem em relação as demais capitais do mundo: Londres, sozinha, concentra conhecimentos do mundo todo, sempre disponíveis àqueles que desejam ser cultural e humanamente mais ricos. |
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Diversidade estratégica
Pensar sobre diversidade e fazer dela uma estratégia bem-sucedida para os negócios e o bem-estar das empresas. Esse é o foco de atuação da consultora sobre diversidade Lisa Stewart, que conta, nesta entrevista exclusiva, suas experiências e fala sobre os benefícios de promover as diferenças no ambiente de negócios. Lisa é formada em administração pelo Chatham College e tem MBA pela Universidade de Chicago Booth School of Business, ambos nos Estados Unidos.
De onde vem seu conhecimento em âmbito profissional sobre diversidade? Vem do meu trabalho nessa área, da minha convivência com pessoas reconhecidas nesse assunto e da minha vivência como imigrante em outros países. Comecei atuando como consultora júnior, facilitando sessões de diálogo chamadas Homens e mulheres como colegas, para uma grande companhia norte-americana no início dos anos 90. |
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Naquela época, eu trabalhava planejando currículos de ensino, conduzindo avaliações organizacionais, direcionando grupos ao foco e auxiliando consultores sêniores em projetos nos quais os clientes buscavam uma estratégia de aproximação para administrar a diversidade. Em resumo, minha principal atividade era encontrar uma forma de habilitar o talento de mulheres e minorias étnicas e torná-las efetivas a fim de que essas minorias não perdessem seus empregos nem ficassem estagnadas em níveis inferiores nas empresas.
Como foi sua experiência na Shell? Inicialmente, eu estava na liderança do grupo Divisão global de diversidade, com sede em Londres. Eu me mudava regularmente da Inglaterra para os Estados Unidos. Essa foi a época em que eu me tornei muito mais atenta às diferenças culturais relativas às nacionalidades e ao fato de que as pessoas são, em geral, pouco conscientes dessas diferenças. Mais tarde, trabalhei como consultora no escritório holandês da Shell na área de Desenvolvimento de liderança. Eu desenhei e desenvolvi o primeiro módulo de treinamento de conscientização em diversidade nos negócios da Shell para todos os administradores sêniores.
Como você definiria diversidade cultural? Diversidade cultural é simplesmente a combinação de diferenças humanas que todos carregam para todos os lugares. Gênero, etnia, religião ou crenças espirituais, orientação sexual, idade etc., tudo isso dá a cada pessoa um jeito muito particular de ver o mundo.
Pensando sobre o ambiente de trabalho, como a diversidade cultural dos funcionários pode ser positiva para toda a empresa? Há muitos exemplos em que os benefícios nos negócios são percebidos. Por exemplo, há casos de empresas com fábricas onde os processos são realizados da mesma maneira ano após ano, o que acaba prejudicando os resultados da produção. Ao introduzir um novo time de administração – diverso em relação à idade dos funcionários, etnia, nível educacional e repertório funcional –, a empresa acaba experimentando uma guinada muito positiva ou, pelo menos, a recuperação do lucro.
Em empresas que se ocupam da produção de itens para o consumidor, a introdução de novos produtos vem, em geral, pelas mãos de times com culturas diversificadas. Ter pessoas de diferentes nacionalidades criando um produto acaba provocando uma avaliação global desse produto antes mesmo de lançá-lo no mercado. Isso tem livrado muitas empresas de cometer erros custosos. Finalmente, grupos de diretores formados por pessoas de diferentes nacionalidades tendem a tomar decisões mais criativas e inovadoras que aqueles grupos formados por pessoas de culturas similares.
Quais os problemas mais comuns que podem ocorrer no ambiente profissional em função dessas diferenças culturais? Pessoas de repertórios culturais semelhantes tendem a se relacionar uns com os outros com mais facilidade que pessoas de repertórios diferentes. Esse fato torna-se muito importante em situações de desigualdade de poder. Aquelas pessoas de repertório semelhante tendem a favorecer umas as outras e, quando possuem mais poder e recursos, costumam, intencionalmente ou não, criar desvantagens para as pessoas que não são iguais a elas. As pessoas em geral falham em reconhecer as diferenças que realmente fazem a diferença ou, às vezes, ficam encabuladas para ter conversas honestas a respeito dessas diferenças.
Como uma pessoa responsável pelos recursos humanos de uma empresa poderia estimular e promover as diversidades dentro do ambiente de negócios? Algumas das melhores experiências que tenho visto têm vindo de ações para colocar, intencionalmente, grupos com pessoas de distintos repertórios culturais trabalhando juntas. O líder desses grupos deve ser uma pessoa sensível, culturalmente consciente e essencialmente um bom administrador. Esses são times que realmente prosperam. Outro ingrediente essencial é saber criar um ambiente seguro e acolhedor em que as pessoas possam falar abertamente sobre suas diferenças. Quando se encoraja os funcionários a se conhecerem uns aos outros como indivíduos e dando-lhes metas e tarefas em comum, haverá, certamente, resultados incríveis.
Embora o papel dos líderes do topo da empresa seja fundamental, o trabalho de gerentes e supervisores – especificamente, a habilidade deles para reconhecer o talento e tirar o melhor de suas equipes no dia-a-dia – é delicadamente importante em qualquer empresa, ainda mais naquelas compostas por pessoas com diferentes culturas. Finalmente, quando se encoraja essas pessoas a manterem certo senso de humor sobre suas próprias diferenças culturais, isso pode render muita diversão e descontração no ambiente de negócios. O trabalho não tem de ser chato! Ter pessoas tão diferentes entre si, que se dão bem e unem esforços para fazer um bom trabalho é uma combinação fantástica. |
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Créditos finais - Quem são Sabrina e André?
Créditos finais Quem são Sabrina e André? Em suas eras pré-londrinas, Sabrina Duran e André Penteado tiveram significativas passagens pela Jobson Brasil e o universo dos óculos. A jornalista atuou como redatora das revistas Universo visual e 20/20 Brasil, ambas da Jobson, e o fotógrafo clicou bastante para a VIEW, inclusive o primeiro editorial de moda da revista, em 2000.
Em três anos na terra da rainha, Sabrina trabalhou como repórter e colunista da revista anglo-brasileira Jungledrums e se especializou em contar histórias de vida. Já tem quase um livro pronto com perfis de pessoas de todas as partes do mundo. Agora, está de volta ao Brasil, passou a compor o time de colaboradores fixos da revista, ao lado de Cíntia Marcucci, e também já começa a se preparar para um novo projeto que você, leitor da VIEW, também vai acompanhar: passar um mês em algumas cidades do mundo conhecendo a sua cultura, produzindo textos e alimentando seu blog. André também partiu rumo à capital da criatividade na mesma época. Trabalha para revistas, empresas e também se dedica a seu trabalho pessoal.
Apesar de mal se conhecerem de vista no Brasil, há pouco mais de um ano Sabrina e André se encontraram coincidentemente em uma balada londrina e daí nasceu uma parceria profissional que, entre outros projetos, também ganhou vida nestas páginas desde maio, com matérias nas edições 88 e 90. Logo depois, conceberam em parceria com a editora Andrea Tavares a Mind the glasses, série que começou a circular na VIEW 91. |
IMAGENS André e Sabrina
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