:: Opinião :: Julho de 2009

Entrevista
Vanessa Di Giovanni e Mehdi Gaurat



Juntos, eles formam a dupla de designers Vanessa & Mehdi, que batiza a marca de óculos de mesmo nome, e conquistou por dois anos consecutivos o Silmo D’Or, a premiação mais cobiçada do setor óptico mundial, concedida pelo salão francês de óptica, o Silmo.

Reportagem e fotos Andrea Tavares
Texto Sabrina Duran

Empolgação é a palavra certa para descrever o clima da entrevista dada pelos designers franceses Vanessa Di Giovanni e Mehdi Gaurat à editora da VIEW, Andrea Tavares. Quando a palavra em inglês lhes faltava, gesticulavam, faziam mímica e buscavam no idioma francês alguma palavra que pudesse ser entendida pela entrevistadora brasileira. O fato é que Vanessa e Mehdi, como são conhecidos, queriam, de qualquer modo, expressar a satisfação com o trabalho que vêm desenvolvendo desde 2006 no mikliStudio, centro de criação coordenado pelo top designer óptico francês Alain Mikli, cujo objetivo é estimular a criatividade de jovens e talentosos profissionais do design.

A parceria da dupla francesa tem dado tão certo que foi premiada por dois anos seguidos com o Silmo d´Or (2007 com o modelo de receituário Carapace – do francês, “carapaça” - e 2008 com o originalíssimo espelho Exolook), prêmio máximo da óptica mundial.

Vanessa, 37 anos, é formada em marketing e comércio internacional; Mehdi, 41 anos, em design gráfico. Ambos já trabalhavam na indústria óptica antes de se conhecerem e formarem a dupla conhecida como Vanessa & Mehdi (assim mesmo, com “&”). Sob os auspícios do mestre Mikli – que lhes dá absoluta autonomia criativa –, Vanessa e Mehdi vão buscar referências onde sua poética verve aponta: na natureza, nos vegetais e até nos insetos. As assimetrias do rosto humano são levadas em conta pelos designers, que, antes da estética, pensam no conforto e na adaptação das armações ao rosto de cada usuário. Os contrastes e as quebras também são frequentemente buscados e o fato de serem mulher e homem trabalhando juntos – portanto, com sensibilidades distintas – é uma grande fonte de opostos que, juntos, harmonizam-se em suas criações.

Durante essa entrevista, Mehdi citou mais de um par de vezes o famoso toque francês que ele e Vanessa costumam imprimir em seus trabalhos. Definir o que é esse toque é complexo, já que envolve referências das mais diversas da cultura francesa e a percepção de seu povo sobre essas referências (história, costumes, arte, atmosfera cultural etc.). Mas, a julgar pelos traços futuristas e ao mesmo tempo delicados dos óculos criados pela dupla, arrisca-se dizer que Vanessa e Mehdi, na seara do design óptico, são, em termos criativos, semelhantes ao famoso (e maluco) equilibrista francês Philippe Petit que, em 1974, aos 23 anos, teve a ideia de armar, clandestina e ilegalmente, um cabo de aço entre os dois prédios do World Trade Center em Nova Iorque (destruídos no atentado terrorista de 2001) e atravessá-lo caminhando sem qualquer proteção.

Tecnicamente falando, o trabalho de Petit foi preciso – passou seis anos planejando como ligaria o cabo entre os dois prédios com segurança e sem ser pego pela polícia. Durante sua travessia, porém, não se via a frieza da técnica, mas a leveza de quem faz o que gosta, por prazer e com poesia. Petit passou mais de 40 minutos indo e voltando sobre o cabo de aço, às vezes parava, deitava, dançava e saudava o público que o via desde o solo, há quase meio quilômetro de distância. Assim é com a premiada produção de Vanessa & Mehdi: os cálculos técnicos de cada armação estão camuflados sob cores e linhas harmoniosas.

Leia a seguir a entrevista que os designers concederam à VIEW durante a Mido 2009, da qual participaram em período integral, recebendo e conversando com clientes, apresentando sua linha, explicando conceitos, ouvindo opiniões críticas e, acima de tudo, muitos elogios.

Onde vocês nasceram e onde vivem atualmente?
Vanessa - Mehdi nasceu em Mâcon, aos pés da região produtora do vinho branco francês Pouilly Fuissé, a Borgonha. Eu nasci em Nantua, uma pequena cidade entre lagos e montanhas. Hoje, vivemos numa pequena vila de apenas 300 habitantes perto de Lyon, chama-se Sonthonnax-la-Montagne.

Vocês vão a Paris também? Trabalham perto de Miki?
Vanessa – Sim, semanalmente. Vamos de trem. Trabalhamos também com Mikli por e-mail. Com a internet, hoje em dia ficou tudo muito mais fácil.

Como vocês se conheceram e começaram a trabalhar juntos?
Vanessa - Eu comecei a trabalhar na indústria óptica há 15 anos. Conheci o Mehdi em uma empresa na qual trabalhamos juntos em algumas linhas por dois anos, até que a firma faliu e decidimos abrir nossa própria empresa em 2003.

Mehdi - Preferimos não trabalhar em nenhuma grande corporação óptica para preservar a filosofia do nosso design. Conhecemos Alain Mikli e o adoramos imediatamente, adoramos sua filosofia do design, é um gênio. Então, decidimos trabalhar com ele e segui-lo. Foi uma oportunidade e tanto de aprender. Com Mikli, podemos ter uma nova visão sobre o futuro dos óculos. E ele deu a possibilidade de fazermos a coleção preservando nossos conceitos.

Que tipo de influência Alain Mikli tem sobre o trabalho?
Vanessa – É o melhor professor que já tivemos! Aprendemos com ele a ter perseverança, a não desistir e a levar nossas ideias até o fim. Ele não influencia nosso trabalho diretamente, mas sempre nos leva além dos nossos limites.

Ele opina sobre o trabalho?
Vanessa - Claro, sempre. Às vezes não concordamos, mas isso é ótimo porque somos desafiados e o resultado final se torna melhor e mais bonito.

Já no mikliStudio, vocês ganharam dois Silmo d’Or consecutivos. Como foi isso?
Vanessa – Incrível! Foi muito importante para nós dividir esse prêmio com Mikli. Ficamos muito orgulhosos.

Mehdi – Foi uma grande emoção ter a possibilidade de mostrar um novo estilo ao mercado, o Carapace [do francês, “carapaça”, o modelo premiado em 2007]. Colocamos nosso estilo em cada armação. Mas é preciso ter humildade.

Vanessa - Sim, porque se, amanhã, as pessoas não gostarem do nosso trabalho, ele termina. Alain Mikli nos deu muitos conselhos, somos muito sortudos.
Mehdi - Trabalhamos muito por isso também, por muito tempo, não foi algo gratuito.

Como é o processo criativo de vocês?
Vanessa – Primeiro, pesquisamos as linhas, imaginamos as curvas e os volumes. Nessas etapas, fazemos apenas rascunhos. Depois, criamos as armações a partir dos detalhes que pensamos. Em seguida, desenvolvemos o conceito em 3D, materializamos a técnica, a ergonomia e o conforto. Por último, fazemos os protótipos, as ferramentas e, finalmente, chegamos à produção.

Mehdi - O fato de sermos homem e mulher é muito importante porque há uma complementaridade.
Vanessa - Nós nunca concordamos. Ele gosta de uma coisa e eu, de outra...

Mehdi - Discordamos da forma, da cor, do tamanho, do design...
Vanessa - Por isso, levamos mais de dois anos para desenhar a primeira coleção. E temos sorte de viver em uma pequena vila que é um lugar muito tranquilo para criar.

Mehdi - Sempre discutimos muito todos os pontos até chegar ao conceito final.
Vanessa – O primeiro desenho é totalmente diferente do projeto final. Levamos de seis meses a um ano para terminar um projeto. Primeiro, pensamos a tecnologia e depois integramos a ela o design. Trabalhamos ao contrário do resto da indústria.

Quais as fontes de inspiração para as criações?
Vanessa - Apreciamos os detalhes que a natureza proporciona, gostamos de histórias em quadrinhos, conceitos de carros... Somos influenciados por muitos ambientes, menos pela indústria óptica.

Mehdi - Vemos relógios, sapatos e jóias; não os comuns, mas aqueles vanguardistas, novos e estranhos. Seguimos o espírito e estilo de alguns designers, como o próprio Alain Mikli, o inglês Ross Lovegrove e o francês Philippe Starck.

Qual a fonte de inspiração mais estranha ou diferente que influenciou um trabalho de vocês?
Vanessa - Na maior parte do tempo, somos inspirados por vegetais, insetos, mas também por curvas e volumes inovativos das criações de designers como a iraquiana Zaha Hadid, o israelense Ron Arad e Ross Lovegrove. Gostamos do contraste, em geral. Notamos que os opostos acabam por se encontrar e produzir fluidez e osmose. Esse é o nosso desafio.

Vocês fazem algum tipo de pesquisa de mercado antes de começar uma nova coleção?
Vanessa - Sim, sempre ouvimos nossos consumidores o máximo possível. Os comentários técnicos, as percepções subjetivas, as preferências do consumidor final são elementos muito importantes nas nossas criações. Essas opiniões nos permitem adaptar um conceito para diferentes mercados. Quando se fala de mercado asiático, por exemplo, precisamos pensar em um conceito que seja adequado a esse público de modo que a oferecer uma resposta correta aos consumidores.

Quem é o consumidor de Vanessa & Mehdi?
Vanessa - Mulheres e homens. Primeiro, pensamos em trabalhar apenas para homens, porque as armações são bastante técnicas. Mas eu sou mulher e quero algo fácil de usar, por isso desenhamos para o público feminino também.

Medhi - Os consumidores das nossas coleções têm perfis totalmente diferentes de estilo, idade e formatos de rosto.

E como é o contato com o mercado durante as feiras, já que passam todo o tempo no stand?
Vanessa - É muito importante receber as críticas e os elogios das pessoas. E é fundamental dar-lhes um retorno, especialmente aos ópticos, que são nossos clientes e conhecem os consumidores de óculos como ninguém.

Mehdi - Podemos aprender muito com eles também, é muito importante para nós.


E como é esse retorno?
Vanessa - Em geral, nosso design deixa as pessoas surpresas, como se fosse um cometa desconhecido! Alguns ópticos viraram fãs desde o começo, outros precisam de um pouco mais de tempo para se acostumar às curvas e às linhas. O retorno da imprensa é muito amigável.

Em geral, nós temos um ótimo relacionamento. Desde o lançamento da coleção, em fins de outubro de 2007, os jornalistas vêm incensando nosso trabalho. Nós apreciamos o apoio deles nos mercados aos quais se dirigem e, especialmente, o apoio que recebemos durante o Silmo 2008 de vários ópticos brasileiros para nos ajudar a desenvolver a marca no Brasil.

Qual o principal conceito dos óculos da dupla Vanessa & Mehdi?
Vanessa - Trabalhamos para que nossas armações possam ser usadas por mais e mais consumidores. Nossa filosofia é que todos têm direito de usar armações confortáveis. A visão é o sentido mais importante e é preciso cuidar bem dela, oferecendo o máximo de conforto.

Vocês já desenharam outros produtos além de óculos?
Vanessa - Tentamos desenhar móveis, mas é muito difícil quando se é um completo desconhecido no mercado. Mas já trabalhamos para outras empresas de óculos; hoje só trabalhamos para Alain Mikli. Quando alguém começa a trabalhar na indústria óptica, acaba se apaixonando pelo produto e não quer desenhar mais nada. Mehdi e eu temos a mesma paixão, que são os óculos e Alain Mikli. E ter paixões na vida é muito importante, porque se acorda de manhã sabendo que vai trabalhar com as coisas de que se gosta.

Como vêem o futuro do design?
Mehdi - Acho que o design será diferente em dez anos e precisamos saber agora em que direção está indo. Temos de perceber as tendências ecológicas e usar materiais recicláveis. Alain Mikli é o único que pode imaginar algo absolutamente novo para os óculos, porque está dez ou 20 anos à frente que os demais designers.

E o que vocês estão preparando para o futuro?
Vanessa - Para o próximo Silmo [de 17 a 20 de setembro, em Paris] estamos fazendo coisas totalmente novas. Vamos continuar nosso projeto favorito, o Carapace, desenhando uma coleção inteira. Espere para ver.

 
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