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Essa coluna teria outro astro como protagonista, mas a notícia da morte de Michael Jackson caiu de forma tão devastadora que foi impossível não falar nisso. A cultura pop sempre me fascinou pelo seu poder de mexer com as pessoas. Mesmo quem não o tinha como ídolo, fez a sua reverência ao talentoso artista. Afinal, quem não dançou ao som de uma de suas músicas ou não se encantou com a genialidade de seus clipes nos anos 80? Eu me incluo nesse grupo facilmente: o então recém-lançado vinil de Thriller foi um dos presentes do meu pai pelos meus 15 anos e jamais conseguirei esquecer a emoção de estar sentada na sala de casa com os amigos diante da tevê em uma noite de domingo à espera da estreia do clipe de Thriller no Fantástico.
Sim, Jackson foi um divisor de águas para a cultura pop e duas coisas me chamaram muita atenção na sua partida. Primeiro, o fato de a sua porção de ícone do pop ter se sobreposto à face de alguém cujos conflitos emocionais foram capazes de gerar um novo ser, quase um monstro, e era só o que se falava dele nos últimos anos.
O segundo ponto foi certa homenagem ao cantor: a dos detentos do presídio de Cebu, nas Filipinas, que celebraram sua memória dançando Thriller – há dois anos, já haviam ficado famosos no YouTube. Eu desconhecia essas performances e quando vi a chamada em um site de notícias com a foto daquele monte de homenzinhos de uniforme laranja em ação, não consegui me conter. Li a notícia e corri para o YouTube em busca da tal coreografia de 2007 e até o momento que eu escrevo esse texto, o link já teve mais 28 milhões de visitas e é até hoje um dos mais vistos.
Saí atrás de mais informações. E me deparei com um processo de transformação muito positivo (bem diferente da transformação do próprio Jackson) que tem a recente reabilitação pela dança como a sua face mais visível.
As penitenciárias filipinas não eram em nada diferentes das vistas por aqui ou em outros países onde os direitos humanos não são privilegiados. Mas em 2004, a governadora de Cebu, Gwendolyn Garcia, contratou seu irmão, um consultor de segurança prisional, Byron Garcia, para comandar um processo de renovação após uma série de rebeliões. O que aparentemente era mais um ato nepotista, tornou-se uma revolução na estrutura carcerária do país. E o que é melhor: refletiu positivamente na vida dos mais de 1,5 mil internos, dos quais 70% são condenados por estupro, tráfico de drogas ou assassinato.
A primeira ação foi transferir todo esse contingente de um prédio secular, com capacidade para apenas 200 presos, para novas e maiores instalações, com condições básicas para uma vida decente. Aí foi a hora de Garcia tomar medidas mais radicais dispensando vários guardas de postura duvidosa a fim de erradicar a corrupção, instalou um sofisticado sistema de segurança, dissolveu gangues, acabou com drogas, armas e uso de dinheiro vivo ao abrir contas bancárias para os internos. E, além dos trabalhos diários, deu início a um regime de exercícios físicos que evoluiu para as aulas de dança em 2007.
Hoje, os internos treinam mais de quatro horas por dia e tem mais de uma dúzia de coreografias (muitas delas no YouTube). Além disso, têm uma vida muito mais saudável já que, com os exercícios e o fim das drogas, abandonaram o vício e agora têm uma relação mais positiva com seus familiares. Com a divulgação dos vídeos (o consultor Garcia cuida pessoalmente disso), os parentes veem que o preso pode não ser mais um caso totalmente perdido e passam a ter algum tipo de esperança em relação ao seu futuro. E os números estão aí para provar: a reincidência no crime de ex-internos de Cebu caiu dramaticamente. Histórias como essa me fazem acreditar mais na vida e na importância da coragem e da dedicação para seguir em frente, mesmo que para isso seja preciso começar do zero e romper algumas amarras. E como é importante acreditar na capacidade própria e dos outros em promover (de preferência, com amor) revoluções nos negócios e em várias esferas da vida. Sempre.
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